Cobra Kai não é tempo perdido

Cobra Kai não é tempo perdido

Um deleite. Essa é a palavra que define a experiência de poder assistir a muito bem feita Cobra Kai, disponível na Netflix desde o início de setembro. É difícil encontrar um amante do streaming que ainda não tenha ouvido falar sobre a série que muito rapidamente saltou para o Top 10 da plataforma, o que certamente não foi à toa. A trama é leve, quase ao estilo comédia romântica, mas atravessada por aventura o tempo todo. Do mesmo modo, rica em flasblacks, leva o expectador a pensar na vida e seus ciclos, seja ele um garoto ou um quarentão. Por via das dúvidas, para quem não viu ainda Cobra Kai, segue um pequeno resumo, sem spoilers.

A história conta a retomada, nos dias atuais, da rivalidade adolescente entre Johnny Lawrence e Daniel Larusso, que dos tatames se estende para a vida – ou vice-versa. Mais de 30 anos depois, os finalistas do torneio regional de caratê de Nova Jersey, vencido por Larusso em 1984, esbarram-se em momentos bem distintos de sua existência. Lawrence, que acaba se revelando uma espécie de bom vilão, é, em tese, o protagonista da história, apresentado como um homem de meia-idade, fracassado, errante, vivendo de bicos e dado a bebedeiras. Daniel Larusso, que havia derrotado Lawrence 34 anos atrás na disputa do campeonato e também da namoradinha Ali Mills, encarna um engomadinho ao melhor estilo american way life; bem-sucedido, chefe de uma família de comercial de margarina, é proprietário de uma senhora concessionária, onde o carro de Lawrence vai parar, provocando o inusitado reencontro dos dois. O caprichoso acaso que os reúne, porém, não se contenta em provocar lembranças de um revanchismo de juventude: entra em cena uma geração de novos personagens ligados aos caratecas de outrora, por laços de sangue e de afeto: Samantha Larusso, Robby Keene e Miguel Diaz, cada um mais cativante que o outro, e que herdam, assimetricamente, a briga remota da dupla original. Está feito o estrago!

A bem da verdade, Cobra Kai já chegou na tela da Netflix com status de queridinha pela sua celebrada origem: os filmes da trilogia Karatê Kid, protagonizada por Daniel Larusso junto a seu célebre Sensei senhor Myagi, de quem aprendeu o caratê enquanto luta e filosofia de vida. Sucesso épico, a saga Karate Kid faz parte do imaginário das gerações que sucederam os saudosos anos 80, década de apogeu da cultura pop. Os filmes que compõem a franquia eram daqueles que se assistiam 100 vezes sem hesitação de tão divertidos e instigantes ao mesmo tempo; daí a nostalgia dos mais velhos em reencontrar e mesmo se (re)ver nos personagens agora mais velhos, mas nem por isso, necessariamente maduros.

De fato, para os trintões e quarentões, a série é simplesmente irresistível. Se a ideia dos diretores foi embriagar de nostalgia esse público acertaram em cheio. Os flashbacks são frequentes, mas não exaustivos, de modo que dialogam bastante bem com a história presente sem maiores “forçações” de barra. Quem está ensaiando para a crise da meia-idade encontra razões de sobra para temer ainda mais fazer essa travessia, mas também encontra motivos de esperança de que a maturidade pode ser gratificante ou redentora, sob o risco de ser melancólica.

A fórmula é capaz de prender a atenção da garotada da geração da internet dos anos 2020? Eis a questão, com a qual aliás a série brinca o tempo todo: a passagem de um mundo analógico para um mundo digital onde o politicamente correto (para o bem e para o mal) atravessa as novas formas de se amar, de conviver e… de brigar. Discussões acerca de tolerância e temas afins, contudo, enriquecem o enredo sem torná-lo aborrecido, ficando mais como um dos panos de fundo sob o qual vemos a redescoberta pessoal de Lawrence por seu amor ao caratê, ainda que ferido pela longínqua derrota para Larusso, ou talvez motivada por ela. Cobra Kai é o nome do dojô que serve de palco para a busca da redenção de Lawrence, na aposta que faz em seu improvável discípulo, o carismático Miguel Díaz. Isso sem mencionar o papel do próprio filho de Johnny, chamado Robby, que se torna nada mais nada menos que o… ops! Sem spoilers!  

Há muitos mais elementos que têm feito os fãs de Cobra Kai suspirarem nesse momento à espera já da terceira temporada. Até para quem não é maratonista é preciso muito esforço para conseguir parar de assistir os risos, beijos, desencontros e brigas da meninada que gira em torno da dupla Lawrence e Larusso que brilha e lança luz sobre os jovens. Além dos episódios serem curtos, a trama é muitíssima bem cadenciada, deixando o espectador vidrado nos próximos passos de pelo menos dois, três ou até quatro personagens ao mesmo tempo. Basta conferir!

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